No começo ela parece uma coceira simples e sem importância. Depois viram feridas, que com o tempo crescem e se espalham pelo corpo. Foi assim que a aposentada Luzia Pereira viu os sintomas evoluírem em seu filho Alan Mortoni, hoje com 22 anos. Os primeiros sinais da doença apareceram quando ele ainda era bebê. “Começou com pequenas feridas nas dobrinhas do corpo. No braço, atrás dos joelhos. Mas hoje em dia ele tem no corpo todo”. O estudante de Ciências de Computação é mais um dos tantos jovens que sofrem de dermatite atópica.
A doença crônica se trata de uma manifestação de origem alérgica, na maioria dos casos, que causam inflamação na pele. Segundo o dermatologista Erasmo Tokarski, as atopias são manifestações alérgicas. “Os exemplos mais conhecidos são rinite, bronquite e asma. A dermatite atópica faz parte destas atopias, ela pode se manifestar sozinha ou em associação com outras destas doenças, o que é o mais comum”.
Existem diversos tipos de dermatite, entre eles a de contato, infecciosa e a atópica. No primeiro caso a inflamação se manifesta por alergia a algum produto em contato com a pele como cosméticos, metais, borracha, cimento e outras substâncias irritativas ou alérgicas. No caso da dermatite infecciosa, a irritação ocorre por agente infeccioso como bactérias, vírus, fungos ou vermes. A forma atópica é causada por fatores genéticos.
“É um fator familiar. Geralmente o paciente atópico herdou a doença de alguém da família. Quando os pais têm a doença, a chance da criança nascer com dermatite é muito maior. É uma espécie de ‘defeitinho’ de fábrica” esclarece Tokarski. Os principais sintomas da dermatite são vermelhidão, pele ressecada, descamativa e lesões com prurido.
A alergista Marta Guidacci explica que a doença é característica da infância, dando seus primeiros sinais ainda nos cinco primeiros meses de vida em 85% dos pacientes. Apenas 2% de novos casos aparecem em pessoas com mais de 45 anos. A especialista afirma que geralmente os sintomas da doença diminuem na fase adulta, mas pode evoluir com piora se houver exposição a fatores desencadeantes ou irritantes.
É o que acontece com Alan. A mãe relembra com pesar as dificuldades enfrentadas pelo jovem: “Ele não tem qualidade de vida. Já fez uso de vários tipos de medicamentos. Melhora, mas logo depois tem crises novamente. Ele é alérgico a produtos químicos. E como funciona um salão de beleza aqui ao lado da minha casa, que utiliza diversos destes produtos, eles acabam desencadeando a piora dos sintomas”, lamenta. O estudante, além de dermatite, tem rinite e conjuntivite alérgica.
Ao demonstrar tristeza pela condição do filho, ela conta que na última crise alérgica as inflamações o deixaram com dificuldade até de se locomover. Mas nem tudo é pessimismo, ela se diz esperançosa com o tratamento atual de Alan. “Eu já procurei todos os [tipos de] médicos, que receitaram pomadas e corticóides. Mas agora ele utiliza vacinas. É um tratamento longo, mas acredito que desta vez dê certo. Ele já sofreu muito com essa doença”, conclui.
Segundo Guidacci, para diagnosticar a dermatite são levados em consideração a história clínica do paciente e exames físicos como teste cutâneos e exames de alergia no sangue. Para medir a reação da pele, substâncias reagentes (veja foto) para cada tipo de alergia são colocadas em contato com o paciente. Estes resultados é que vão auxiliar o alergista no diagnóstico definitivo. Como se trata de uma doença crônica, Marta alerta que os tratamentos iniciais são sintomáticos, ou seja, visando o controle dos fatores desencadeantes.
“O que desencadeia as crises podem ser fatores alérgenos ambientais como ácaros, alérgenos alimentares, fatores irritativos (suor, sabão, sabonete). Geralmente as crises podem ser controladas com hidratação da pele, medicamentos orais e tópicos como cremes e pomadas. Dependendo do fator desencadeante e do nível da doença, a vacina pode ser indicada para curar a própria alergia”.
Para ajudar a amenizar os sintomas, Tokarski também dá dicas: “As pessoas atópicas devem evitar banhos quentes, para não ressecar muito a pele. Se hidratar bem usando cremes e ingerindo bastante líquidos. Devem também evitar derivados do leite, já que a lactose costuma gerar alergias aos pacientes” finaliza o profissional.
Na internet, além de grupos de discussão sobre o assunto, existe até um site da Associação de Apoio à Dermatite Atópica (http://www.aada.org.br/). Nele há bastante informação, links sobre o tema, depoimentos e até os endereços da entidade em oito cidades brasileiras. Desta forma, pacientes e familiares descobrem que com informação e correto atendimento de profissionais é possível conviver com a doença.